São muitas as histórias e piadas contadas. Alguns frequentadores preferiam
ficar em pé no balcão onde se criava um ambiente muito gostoso e ali se
jogava muita conversa fora acompanada de algumas partidas de porrinha.
Manoel, puxando pela memória, lembrou que era muito comum os pescadores Parlon, Cid Alves, Antonio, Liba, Bileca, Vitalino, Jamelão e muitos outros se reunirem no bar par relaxar após uma
pescaria. E entre eles havia um frequentador muito especial para todos de
nome Weber, campo-grandense, dentista, que quando o sol de verão começava a
brilhar, ele fechava o seu consultório e ia para sua casa de veraneio
localizada no Morro do Picão, fazia questão de ser tratado como pescador. Ele
tinha uma lancha de nome Tantão e adorava pescar anchova próximo à Ilha Rasa
- Jamelão e Zé Pinto eram seus companheiros de pescaria. Soubemos que ele sempre levava um
caixote com algumas cervejas e o seu maior prazer, logo após a pescaria, ainda
na lancha, era beber de uma só vez uma cerveja até que a testa doesse.
Naquela época existia cerveja com casco preto ou verde e somente para passar
o verão ele encomendava e escolhia quase 600 garrafas de cerveja casco preto,
que eram colocadas em sacos para que chegassem lá em sua casa no Morro do
Picão.
Muito amigo de todos, brincalhão, tinha atitudes inesperadas. Conta Manoel
que entre o bar e a casa vizinha havia um espaço onde alguns desavisados
urinavam e o Weber sabendo que isso aborrecia o velho Neco, toda vez que ele
chegava de Campo Grande, parava o seu citroen preto na porta do bar só para
urinar naquele lugar e assim aporrinhar o Neco.Certo dia, Neco manda comprar
material de alvenaria para construir um muro e fechar aquele espaço e assim
acabar com as provocações que sofria. Muro pronto, aparente paz reinando na
vida do Neco e olhem quem estava chegando: Weber e o seu citroen preto; mais
dessa vez com uma escada amarrada em sua capota. Curiosidades á parte, não é
que ele tirou a escada e a posicionou sobre aquele muro e subindo, lá de
cima,urinou mais uma vez naquele local. Essa atitude foi hilariante para quem
estava no bar naquele dia, ficando comprovado que o cara era muito
"doido".
Outro comportamento que o fazia diferente e que deixava todo mundo de olho
arregalado, quando ele chegava na casa de alguém sugeria um cafezinho e se
servia colocando primeiro o açúcar na boca e depois virava o bule entornando
o café em sua boca e logo após se deliciava dizendo que os dois iriam se
entender lá dentro.
Sempre de gozação com todos, adorava colocar apelidos nas pessoas que ele
conhecia pela primeira vez, e dificilmente eram esquecidos. Muitos, até hoje,
carregam os seus apelidos como Jamelão, tira-vira, Corongado, Telecoteco,
Maré mansa, Empenado, Macarrão, Bandolim, Capitão-da-mata, Pé grande. Certa
vez viu o amigo Xango Xaxau mijando e a partir daquele momento passou a ser
chamado de pé-de-mesa
Certa vez ele ofereceu uma certa quantia de dinheiro para o Neco para que as
frágeis portas de madeira fossem trocadas por portas de aço. Elas possuíam
uma abertura na parte superior e Weber disse que alguém poderia entrar por
ali e beber uma gelada. Neco desconversou,
pois sabia que não era possível por ser bem alta a tal abertura. Em
companhia de João Pinto e com ajuda de uma escada, eles entraram e tomaram
algumas geladas. No dia seguinte, quando Neco abriu o bar, haviam seis
garrafas de cerveja vazias e um bilhete com dinheiro anexado que dizia: Eu
não disse que alguém poderia entrar aqui? E assim foi a passagem de Weber por
aqui, uma brincadeira atrás da outra, uma pessoa que ainda está na memória
dos que o conheceram.
Manoel disse que são tantas as histórias sobre esse personagem, que
pretende escrever um livro abordando a sua passagem por Barra de Guaratiba.
Outro frequentador que morava em Barra de Guaratiba era um alemão chamado
Gerald Smith que presenteou Manoel com um rádio que tinha um alto-falante
muito potente, em 1970, ano da Copa do Mundo, todos ouviram a transmissão dos
jogos no bar. Chico Buarque e Marieta Severo, sua esposa, também chegaram a
frequentar o bar, pois tinham uma casa na rua onde hoje recebe seu nome: Rua
Chico Buarque de Holanda.
Era comum Manoel ser presenteado com discos de artistas famosos como Caetano, Gilberto Gil, Paulinho da Viola e muitos outros, para que fossem tocados em seu bar. Certo dia parou em frente do bar uma Veraneio Preta do DOPS (Delegacia de Ordem Política e Social - órgão de repressão na época) e levaram todos os discos alegando serem liberais demais. Manoel, sem graça, contou para Chico Buarque o acontecido recebendo deste outros discos de presente.
Manoel conta que certa vez, Ângela Ro Ro estava jogando sinuca com duas amigas quando um Sargento da Marambaia se insinuou querendo paquerar as duas garotas. Ângela enfurecida veio com taco em cima do sargento que rebateu nela com toda força. Foi tanta a confusão que saiu na primeira página do jornal "O Dia".
Manoel, nascido em Barra de Guaratiba, morava no Caminho do Souza, mas só com oito anos viu a praia pela primeira vez. Encantado, chorava de emoção ao contemplar aquele mundo de águas a sua frente.
Manoel suspira saudoso da Barra de Guaratiba que tinha um povo humilde, mas muito animado, que participava das Festas Juninas de São Pedro com queima de fogos, muitas brincadeiras para a criançada, Missa de São Pedro, Procissão Marítima com mais de 40 barcos, Bingo com prêmios em Bolo e Tainha e a Banda do Mestre Alencar, foram momentos marcantes e que muitos ainda relembram com muita alegria.
Lá no bar existem pequenos painéis com várias fotos de pessoas, e de alguns acontecimentos que contam parte da história de Barra de Guaratiba. Também podemos ver alguns ossos de baleia que Manoel guarda nas prateleiras.
Manoel já patrocinou vários artistas e projetos como por exemplo:
Livro do Poeta Chiquinho e suas Histórias de Guaratiba;
Aulas de História da Arte com Vasconcellos;
Reflorestamento das Encostas;
Projeto Velejar com Lars Grael;
Torneios de Futebol na Praia;
Festa de São Pedro;
Fundou o Grupo Frade Caminhada Ecológica;
A Capelinha de São Pedro;
Feira de Artesanato, etc.
Também conseguiu trazer para o Colégio Professor Vieira Fazenda, com auxilio do Diretor Sr. Hélio, o curso de 2° grau que era ministrato no turmo da noite.
Personalidades que já estiveram no Bar Xodó:
Paulinho da Viola;
Lars Grael;
Afonsinho;
Martinho da Vila;
Juca de Oliveira;
Mauro Mendonça;
Grande Otelo (quando estava gravando o filme Macunaíma);
Jorge Aragão;
Ângela Ro Ro;
Zizi Possi;
Fátima Guedes;
Niltom Santos;
Moises Fontana;
Brito;
Paulo Cesar Caju.
E como todo bom homem, Manoel também tem um sonho: Poder construir uma casa de repouso para as pessoas desamparadas da região.
E assim, uma história se completa, e queremos, que não só essa geração, mas aquelas que estão por vir, também conheçam nossas histórias.
Entrevista realizada por:
Urbano Mena - Artista plástico e
Edson Ribeiro ( Grande ) - Proprietário deste site.
Conheci Barra de Guaratiba através do meu Tio Weber, que convidava meu Pai para pescar, e eu ficava, juntamente com minha familia, em sua casa. Fui me apaixonando pelo lugar a cada verão que ali passava, e hoje - em homenagem a nossa praia - construí o site www.amobarradeguaratiba.kit.net, que pretende dividir com todos um pouco de tudo que vivemos em Barra de Guaratiba.

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