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Armazém do Seu Neco
Armazém Recanto do Sossego Bar Xodó


Uma história que se completa.

Foto : autor desconhecido

Em 1943, Manuel Teixeira Ribeiro, pai do Manoel (Nequinho) abriu uma birosquinha de frente à Ponte Velha da Marambaia (onde hoje é o mercado Super Rede). Na época era conhecido como o "Armazém do Seu Neco".

Em 1957 o armazém mudou-se para a Praia do Canto e passou a ser conhecido como "Armazém Recanto do Sossego". Em sua inauguração o animador e patrocinador da Radio Mauá, Cosme José da Silva, gravou um programa ao vivo noticiando a inauguração do Mercadinho Recanto do Sossego, ocasião em que compareceram grandes artistas da época, tais como: Ivan Cury, Isaura Garcia, Luis de Carvalho, o gaitista Fred Williams, famoso nessa época, e César de Alencar que tinha um programa ao vivo na Rádio Nacional.


Foto : Edson Ribeiro

Em 1968 Manoel (Nequinho) assume o armazém depois do falecimento de seu pai mudando o nome para "Bar Xodó" inspirado na musica de Gilberto Gil : " Eu só quero um xodó...!


São muitas as histórias e piadas contadas. Alguns frequentadores preferiam ficar em pé no balcão onde se criava um ambiente muito gostoso e ali se jogava muita conversa fora acompanada de algumas partidas de porrinha. Manoel, puxando pela memória, lembrou que era muito comum os pescadores Parlon, Cid Alves, Antonio, Liba, Bileca, Vitalino, Jamelão e muitos outros se reunirem no bar par relaxar após uma pescaria. E entre eles havia um frequentador muito especial para todos de nome Weber, campo-grandense, dentista, que quando o sol de verão começava a brilhar, ele fechava o seu consultório e ia para sua casa de veraneio localizada no Morro do Picão, fazia questão de ser tratado como pescador. Ele tinha uma lancha de nome Tantão e adorava pescar anchova próximo à Ilha Rasa - Jamelão e Zé Pinto eram seus companheiros de pescaria. Soubemos que ele sempre levava um caixote com algumas cervejas e o seu maior prazer, logo após a pescaria, ainda na lancha, era beber de uma só vez uma cerveja até que a testa doesse. Naquela época existia cerveja com casco preto ou verde e somente para passar o verão ele encomendava e escolhia quase 600 garrafas de cerveja casco preto, que eram colocadas em sacos para que chegassem lá em sua casa no Morro do Picão.

Muito amigo de todos, brincalhão, tinha atitudes inesperadas. Conta Manoel que entre o bar e a casa vizinha havia um espaço onde alguns desavisados urinavam e o Weber sabendo que isso aborrecia o velho Neco, toda vez que ele chegava de Campo Grande, parava o seu citroen preto na porta do bar só para urinar naquele lugar e assim aporrinhar o Neco.Certo dia, Neco manda comprar material de alvenaria para construir um muro e fechar aquele espaço e assim acabar com as provocações que sofria. Muro pronto, aparente paz reinando na vida do Neco e olhem quem estava chegando: Weber e o seu citroen preto; mais dessa vez com uma escada amarrada em sua capota. Curiosidades á parte, não é que ele tirou a escada e a posicionou sobre aquele muro e subindo, lá de cima,urinou mais uma vez naquele local. Essa atitude foi hilariante para quem estava no bar naquele dia, ficando comprovado que o cara era muito "doido".

Outro comportamento que o fazia diferente e que deixava todo mundo de olho arregalado, quando ele chegava na casa de alguém sugeria um cafezinho e se servia colocando primeiro o açúcar na boca e depois virava o bule entornando o café em sua boca e logo após se deliciava dizendo que os dois iriam se entender lá dentro.

Sempre de gozação com todos, adorava colocar apelidos nas pessoas que ele conhecia pela primeira vez, e dificilmente eram esquecidos. Muitos, até hoje, carregam os seus apelidos como Jamelão, tira-vira, Corongado, Telecoteco, Maré mansa, Empenado, Macarrão, Bandolim, Capitão-da-mata, Pé grande. Certa vez viu o amigo Xango Xaxau mijando e a partir daquele momento passou a ser chamado de pé-de-mesa

Certa vez ele ofereceu uma certa quantia de dinheiro para o Neco para que as frágeis portas de madeira fossem trocadas por portas de aço. Elas possuíam uma abertura na parte superior e Weber disse que alguém poderia entrar por ali e beber uma gelada. Neco desconversou,  pois sabia que não era possível por ser bem alta a tal abertura. Em companhia de João Pinto e com ajuda de uma escada, eles entraram e tomaram algumas geladas. No dia seguinte, quando Neco abriu o bar, haviam seis garrafas de cerveja vazias e um bilhete com dinheiro anexado que dizia: Eu não disse que alguém poderia entrar aqui? E assim foi a passagem de Weber por aqui, uma brincadeira atrás da outra, uma pessoa que ainda está na memória dos que o conheceram.

Manoel disse que são tantas as histórias sobre esse personagem, que pretende escrever um livro abordando a sua passagem por Barra de Guaratiba.

Outro frequentador que morava em Barra de Guaratiba era um alemão chamado Gerald Smith que presenteou Manoel com um rádio que tinha um alto-falante muito potente, em 1970, ano da Copa do Mundo, todos ouviram a transmissão dos jogos no bar. Chico Buarque e Marieta Severo, sua esposa, também chegaram a frequentar o bar, pois tinham uma casa na rua onde hoje recebe seu nome: Rua Chico Buarque de Holanda.

Era comum Manoel ser presenteado com discos de artistas famosos como Caetano, Gilberto Gil, Paulinho da Viola e muitos outros, para que fossem tocados em seu bar. Certo dia parou em frente do bar uma Veraneio Preta do DOPS (Delegacia de Ordem Política e Social - órgão de repressão na época) e levaram todos os discos alegando serem liberais demais. Manoel, sem graça, contou para Chico Buarque o acontecido recebendo deste outros discos de presente.

Manoel conta que certa vez, Ângela Ro Ro estava jogando sinuca com duas amigas quando um Sargento da Marambaia se insinuou querendo paquerar as duas garotas. Ângela enfurecida veio com taco em cima do sargento que rebateu nela com toda força. Foi tanta a confusão que saiu na primeira página do jornal "O Dia".

Manoel, nascido em Barra de Guaratiba, morava no Caminho do Souza, mas só com oito anos viu a praia pela primeira vez. Encantado, chorava de emoção ao contemplar aquele mundo de águas a sua frente.

Manoel suspira saudoso da Barra de Guaratiba que tinha um povo humilde, mas muito animado, que participava das Festas Juninas de São Pedro com queima de fogos, muitas brincadeiras para a criançada, Missa de São Pedro, Procissão Marítima com mais de 40 barcos, Bingo com prêmios em Bolo e Tainha e a Banda do Mestre Alencar, foram momentos marcantes e que muitos ainda relembram com muita alegria.

Lá no bar existem pequenos painéis com várias fotos de pessoas, e de alguns acontecimentos que contam parte da história de Barra de Guaratiba. Também podemos ver alguns ossos de baleia que Manoel guarda nas prateleiras.



Manoel já patrocinou vários artistas e projetos como por exemplo:

Livro do Poeta Chiquinho e suas Histórias de Guaratiba;
Aulas de História da Arte com Vasconcellos;
Reflorestamento das Encostas;
Projeto Velejar com Lars Grael;
Torneios de Futebol na Praia;
Festa de São Pedro;
Fundou o Grupo Frade Caminhada Ecológica;
A Capelinha de São Pedro;
Feira de Artesanato, etc.

Também conseguiu trazer para o Colégio Professor Vieira Fazenda, com auxilio do Diretor Sr. Hélio, o curso de 2° grau que era ministrato no turmo da noite.

Personalidades que já estiveram no Bar Xodó:

Paulinho da Viola;
Lars Grael;
Afonsinho;
Martinho da Vila;
Juca de Oliveira;
Mauro Mendonça;
Grande Otelo (quando estava gravando o filme Macunaíma);
Jorge Aragão;
Ângela Ro Ro;
Zizi Possi;
Fátima Guedes;
Niltom Santos;
Moises Fontana;
Brito;
Paulo Cesar Caju.

E como todo bom homem, Manoel também tem um sonho: Poder construir uma casa de repouso para as pessoas desamparadas da região.

E assim, uma história se completa, e queremos, que não só essa geração, mas aquelas que estão por vir, também conheçam nossas histórias.

Entrevista realizada por:

Urbano Mena - Artista plástico
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Edson Ribeiro ( Grande ) - Proprietário deste site.
Conheci Barra de Guaratiba através do meu Tio Weber, que convidava meu Pai para pescar, e eu ficava, juntamente com minha familia, em sua casa. Fui me apaixonando pelo lugar a cada verão que ali passava, e hoje - em homenagem a nossa praia - construí o site www.amobarradeguaratiba.kit.net, que pretende dividir com todos um pouco de tudo que vivemos em Barra de Guaratiba.